post da Martinha Fonseca

Sobre privilégios que cegam

e o desânimo que dá

19 fev 18

Não está muito difícil de achar uma roda de conversa que tenha como tópico a intervenção federal no Rio de Janeiro (sad, but true). Ontem mesmo eu estava em uma e lá para as tantas, entre argumentos pró e suspeitas de “será que é isso mesmo?” ou “por quê só agora?” uma pessoa me responde a esse último questionamento da seguinte forma: “é que agora está sendo suprimido o direito de ir e vir. a coisa ficou mais grave”.

Mas ô cara pálida, você realmente acha que o direito de ir e vir passou a ser desrespeitado só agora que o saque de supermercados chegou ao Leblon? Só agora que carros são assaltados no trânsito em Copacabana? E os tantos cidadãos pobres, negros e excluídos, moradores de favelas e comunidades que há muito não conseguem sair de casa para trabalhar ou não conseguem voltar para casa porque está tendo tiroteio? E as crianças que já não têm direito de ir para a escola e saírem vivos de lá? Não importa não? Não é estarrecedor , não? Não merece atenção da população e atitude do governo, não?

Vocês vejam, cada dia mais, diante de tantos e tantos diálogos como esse acima, eu percebo o quanto a fala de Chimamanda Ngozi Adichie faz sentido: “é natural do privilégio cegar”, disse ela em um discurso para formandas. Na primeira vez que ouvi essa frase ela já me impactou, mas é no dia a dia, no surrealismo imperceptível de falas como essa que descrevi no início do post, que essa frase da escritora nigeriana me volta a cabeça: é mesmo necessária uma vigilância constante para que essa cegueira do privilégio não nos tome por completo. Em qualquer área da nossa vida.

Observe que, quem nasceu com a certeza que teria onde estudar e em um meio em que todos a sua volta têm essa convicção, não consegue nem pensar sobre o que seria viver sem escola. Ou viver em uma escola que não tenha teto, cadeiras, mesas e professores. Ou pior, que na falta de tudo isso, ainda tenha balas perdidas perfurando paredes.

Quem nasceu privilegiado apenas por ser homem, não sabe o que é nascer e viver em eterna desvantagem apenas por ser mulher. E não é só que não saiba, o problema real da cegueira dos privilegiados é que, mesmo diante de fatos que provam essa desigualdade,  a pessoa se nega acreditar que as coisas sejam de fato assim. “é mimimi”.

Quem cresceu vendo papai e mamãe felizes em casa, casais héteros na televisão e exercícios de escola, não sabe o que não se encaixar no padrões e não ser representado absolutamente em nenhum lugar para onde olhe. “Será que não existem  pessoas como eu?”.

E assim, eu sei que por mais verdadeiro que seja a frase de que privilégio cega, isso não é justificativa para preconceituosos serem preconceituosos, né? Mas tem dias que, diante de tamanho absurdo, a gente só diz um “hmrum”, para evitar uma briga, e guarda a indignação para um outro momento – tipo hoje, aqui – em que desabafar a verdade não pareça não absurdo a alguém. Hunf.

 

Categoria: Diário de Madame
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4 comentários
  1. Liliane

    Disse tudo!

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  2. Bianca

    Martinha, que bom trazer esse assunto para o blog. Lógico que ele parte de uma situação extrema, mas as reflexões suscitadas são tão importantes…
    Bom que não fiquemos apáticos a dor do outro.

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  3. Sara

    O melhor post de todos

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  4. CAROLINE DE GOIS SOUSA

    É fácil esquecer que somos privilegiados. Mesmo com tanta notícia ruim na tv. Talvez só tenha sentido isso na pele quem fazia parte da classe média mas viu seu pai perder o emprego, teve que sair da escola particular e morar na casa dos avós ou ainda quem fazia parte da classe alta e a empresa dos pais faliu com toda essa crise. Ao meu ver, o caos só nos chama atenção hoje pois atingiu classes que antes não sofriam com ele. Os pobres que é a maioria sofrem diariamente com tudo isso… Tudo vira supérfluo!

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