post da Martinha Fonseca

Seje menas

existe vida entre o amor e ódio absolutos

31 jan 18

E lá para as tantas, no meio dos meus devaneios profundos (ou nem tanto), eu solto a seguinte pérola: “quando esse tipo de coisa acontece, eu só falto morrer!!! vontade de matar uma pessoa dessa!!“. E fingindo um espanto irônico, minha psicóloga, do outro lado da sala, me questiona: “morrer, Marta? matar? é isso mesmo?“.

Custei a dar o braço a torcer que existe um tanto – ou um tantão – de exagero desproporcional na minha fala. Me acostumei a usar de forma tão corriqueira algumas hipérboles que elas já não me pareciam tão pesadas, apenas uma força de expressão. Inclusive, confesso, que nas primeiras vezes que esses questionamentos apareceram naquela sala de terapia, eu revirei os olhinhos da minha alma por acreditar ser uma perda de tempo ou até implicância dela comigo. “Vamos combinar, querida, que eu tenho coisa mais importante pra tratar aqui, não é? foco! foco”, pensei com os meus botões.

Mas, se a gente deixar o orgulho de lado e parar pra ver, é natural mesmo do exagero fazer tudo parecer pequeno, pouco, insuficiente. E que perigo existe nisso! De repente, a gente se acostuma a odiar em vez de não gostar, a se consumir com algo que desagrada em vez de só perceber o desagrado; ou, se formos para a outra ponta, a gente vai se acostumando a querer só o que nos dê arrepio, que faça o coração palpitar, o que nos causa euforia. De repente, como num passe de mágica, a alegria, pura e simples, serena talvez, já não é assim tão alegre. Já não é assim tão suficiente.

A gente anseia por mais e se acostuma com isso. Vira tudo meio que oito ou oitenta de um jeito tão drástico que não é de se surpreender que nada mais satisfaça. Vamos do céu ao inferno, da euforia absoluta ao ódio mortal. Do “eu amo demais isso” a “que saco, odiei aquilo“. De melhor amiga à inimiga. De amor da vida a desafeto-socorro-chuta-esse-embuste-pra-longe-de-mim. Um vai e vem de emoções que nos tiram da euforia descompensada à tristeza absoluta, decepção profunda, ódio mortal.

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Mas aí eu pergunto de volta a você a pergunta que antes me revirava o olho, mas que agora faz sentido: ódio? é isso mesmo, madame?

Na base do exagero, a gente aprende a reagir apenas ao extremo, entregando energia demais ao que não sai nos conformes e exigindo demais que, para que algo dê certo e nos faça verdadeiramente feliz, essa coisa tem que ser intensa, poderosa, devastadora, avassaladora. O meio termo não serve, o sossego não serve, a doçura, a leveza, o equilíbrio não servem. E aí, não é de se surpreender que nos tornemos insensíveis a dor do outro, à vontade do outro, ao sentimento do outro – afinal, ou a gente ama ou odeia, né?

E não se engane que todo esse sobe e desce de emoções não se reflete em nós mesmos: com a mesma régua descompensada do amor e ódio absoluto com a qual medimos a vida alheia, medimos a nossa. E aí o sucesso só é sucesso se me levar ao topo do mundo, o salário é só é bom se for o melhor do mercado, o corpo só é bonito se for O mais bonito, e a alegria só é alegria se vier acompanhada da euforia.

Mas quer saber, existe uma vida linda, feliz, importante e verdadeira no meio de tudo isso. Que, sim, nos traz picos de alegria ou tristeza, mas que finca as raízes mais profundas e forte no que é importante de verdade, no equilíbrio entre o bem e o mal. Existe uma vida que flui melhor quando a gente gasta energia com o que gosta, quando sente, sim, o coração bater, mas que não se consome com o que, no final das contas, é sempre passageiro.

 

 

 

Categoria: Diário de Madame
post da Martinha Fonseca

Resenha de livro: Propósito, de Sri Prem Baba

livro delícinha e fácill de ler

29 jan 18

Esse ano eu estabeleci como meta pessoal ler 16 livros – uma meta modesta, eu sei, mas ainda assim uma meta. O primeiro livro a ser lido e que deu start para as leituras do ano foi Propósito, de Sri Prem Baba. Eu cheguei atrasada no hype, eu imagino, porque bastou eu postar esse livro no stories/instagram (@armariodemadame) que choveram comentários de “livro maravilhoso”, “já li e amei”, “você vai amar“. Inclusive, desde então, só vejo “Propósito” aparecendo nos stories e fotos por aí. Parece mesmo um livro queridinho.

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Em apenas 156 páginas, o líder humanitário e mestre espiritual Sri Prem Baba discorre, em um texto leve e simples (porém não simplório) o que é o propósito de vida que cada pessoa carrega, como encontrá-lo (porque obviamente cada pessoa tem a sua própria missão de vida), porquê encontrá-lo e que coisas boas podem vir desse encontro.

E sabe o que eu achei mais interessante disso tudo? Ele se equilibra bem entre auto-ajuda barata e um livro com conteúdo pesado ou denso demais. Não é que eu tenha lido o livro e de imediato tenha encontrado meu propósito, me sentido mudada, inspirada em ser melhor e que todos os nós e aflições da minha mente e coração tenha desaparecido. – ele não é uma pílula mágica e o próprio autor faz questão de ratificar que existe um processo pelo qual devemos passar para encontrar o nosso próposito. De verdade, para mim, ler esse livro me trouxe algo mais sutil, mas talvez ainda mais importante: eu me senti motivada a começar.

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Sabe aquela crise existencial que nos paralisa? Foi bom sentir essa aflição sendo acolhida. Você entende que não é só com você que ela acontece; pelo contrário, Sri Prem Baba explica porquê cada vez mais pessoas conquistam coisas, metas e objetivos e ainda assim se sentem infelizes e vazias. Existe, láaa na infância, um descolamento do seu próposito de vida, uma sequência de acontecimentos que te afastam desse autoconhecimento, que te afastam de você mesma, e que te trazem inseguranças, medo, compulsões e sofrimento.

E, repito, não é que ao longo de algumas páginas ele te ensine um passo a passo milagroso para acabar com tudo isso. Ele “apenas” de explica as relações de causa e efeito que costumam destravar esse tipo de confusão na nossas mente e vida, e quais os caminhos que existem para retomar esse encontro da nossa vida com o nosso real propósito.

O mais legal? A leitura flui bem e ainda tem, ao final do livro, 7 exercícios que você pode fazer para colocar alguns conceitos do livro em prática. Bem didático, bem simples e bem interessante.

Uma leitura que me abriu os olhos, me inspirou e me motivou. Longe de ser uma pílula mágica, mas também passa longe de ser uma leitura qualquer. Recomendo muito!

 

Categoria: Livros
post da Martinha Fonseca

Olá, você conhece Chimamanda Ngozi Adichie?

#WeShouldAllBeFeminists

25 jan 18

Se você não conhece, não tem problema, não. Eu também, até pouco tempo, não conhecia essa maravilhosidade em forma de mulher nigeriana: Chimamanda Ngozi Adichie.

Nosso encontro começou quando, depois de um jantar de sábado, cheguei em casa, liguei a tv no meu canal favorito (globonews) e estava passando a reprise desse programa “Milênio”. A entrevistada da vez? Chimamanda, é claro. Dan e eu simplesmente ficamos hipnotizados: que clareza de ideias, que tranquilidade em expor seu ponto de vista, que inteligência, que discurso maravilhoso. Aquela pessoa que podemos dizer que é inspiradora, sabe?

Daí eu percebi que meio que já conhecia Chimamanda, porque é dela o discurso maravilhoso que aparece aos 1:26 do clipe Flawless, de Beyonce:

E, aí, desde então, é um caminho sem volta de amor e inspiração que sinto ao entrar em contato – ainda que digitalmente – com os pensamentos que essa mulher compartilha. Não é segredo para ninguém a minha identificação e curiosidade crescentes em relação ao feminismo, e confesso que, em meio a tanta baboseira na internet, é construtivo encontrar uma pessoa tão clara de ideias, que fala dos graves problemas que a desigualdade de gênero constrói, mas sem motivar ódio. Uma pessoa que fala com tanta firmeza e doçura ao mesmo tempo faz a gente querer ouvir com o coração aberto.

Sério, dê uma chance:

A maioria dos discursos de Chimamanda são bem longos – e você não precisa ver/ouvir tudo de uma vez só. Dá play em um pouquinho agora, retoma depois, sabe? É esclarecedor entender que sim, existe uma desigualdade de gêneros totalmente desnecessária que gera dor, sofrimento, tristeza e limitações em mulheres que seriam brilhantes se não fossem lembradas o tempo todo que “são mulheres”, como uma definição definitiva de um tipo menor de ser humano.

O discurso abaixo é um dos meus favoritos. Foi durante a colação de grau de uma faculdade de mulheres nos EUA. Esse eu não achei com legendas no youtube, mas se você entende um pouquinho de inglês, vale muito, muito, muito o clique.

Para fechar, um lembrete que, além de uma feminista incrível, Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora incrível e que, entre outros títulos, Americanah e Meio Sol Amarelo já estão na minha listinha de “livros para 2018”.

<3

Beijos,

Martinha

Categoria: Comportamento