post da Martinha Fonseca

Sobre a ausência

e o que fica da gente depois dela

20 nov 17

Sobre as ausências, um fato é: a gente não está preparado para elas. Seja de gente que já morreu propriamente, seja de gente que é viva mas que parece que tá morta. Gente ausente – física e emocionalmente. Difícil de lidar, não é? Um dia eu posso até parar aqui para elaborar sobre essa história de gente que está aqui mas não está, porque até me parece uma dor mais cruel de lidar. Por hora, no entanto, um pouquinho dos meus pensamentos sobre a morte em si e o que fica da gente depois dela.

Porque vai chegando essa época de novembro, e eu vou lembrando de minha mãe, e do que ouvi de uma amiga que, já tendo perdido tanto pai como mãe para o câncer, respondeu a minha pergunta no dia do enterro de minha mãe:

“veca, vai passar?”, eu perguntei desesperada, ao que ela, muito amorosamente me respondeu, sem rodeios: “não”.

E é isso mesmo. Não passa. Não diminui. Não melhora. É ferida aberta, sensível, dolorida. Que não passa e que não melhora, mas que, olha só, também não piora. E isso consola, não é? Bem, eu acho que sim. Aquela dor que você sente ali na hora da notícia já é a dor inteira, pura e simples, que vai te acompanhar pelo resto da vida. E talvez pareça insuportável justamente por isso, porque vem toda de uma vez só, dando um chute bem dado na caixa dos peitos. E não é que, com o tempo, essa dor pare de doer – já dizia minha amiga, né, que ela (a dor) não passa; mas você se familiariza com ela, até se apoia nela e encontra nessa dor saudosa um consolo e um ombro amigo na hora que a coisa aperta. É como se a saudade que eu sinto, e que dói tanto, seja o jeito de eu sentir minha mãe aqui. Tem dias que eu não consigo lidar com essa ausência, mas tem dias que eu mergulho de cabeça nessa dor, até sentir que encontrei conforto ali. Meio louco para uns, faz sentido pra mim.

O problema mesmo, confesso com base na minha experiência, claro, é o que fica na gente depois de uma dor assim. Eu não tinha me dado conta como me sentia obrigada a ocupar o lugar de minha mãe (talvez na tentativa de sentir menos a ausência dela), ou de como me fechei pro mundo depois que ela se foi. As coisas saíram do meu controle (porque se eu pudesse controlar ela ficava comigo aqui até hoje, né?) e é como se eu tivesse medo de ir lá fora viver e perceber, mais uma vez, que eu não controlo nada.

E aí eu, que já não tinha sido muito aberta na adolescência para as amizades (um dia falarei mais sobre isso), me fechei ainda mais. Com medo, assustada, temerosa. Cheguei a um ponto que até o contato físico me incomodava – sabe quando uma pessoa tenta tirar um cílio caído no seu rosto? Normal, né? Corriqueiro, né? Mas era algo que me deixava completamente desconfortável. Mesmo. De verdade. Me tremia, me contraía da cabeça aos pés.

Por isso que hoje eu vim falar disso aqui: sobre as ausência físicas, o que me assusta mais hoje não é a dor em si (por mais doída que seja), mas o que a gente faz diante dessa ausência. Os subterfúgios que usamos para tentar aguentar o tranco, porque é como se a gente tivesse certeza que não vai aguentar. Mas, diante de 8 anos lidando com essa ausência e convivendo com essa dor, posso te dar/me dar um conselho? A gente aguenta. A gente aprende. A gente é mais forte do que a gente mesma pensa que é.

Você vai ver que vai ser capaz de juntar os caquinhos e se reeguer – que até vai precisar de ajuda para resignificar sua nova rotina, mas que você será capaz, entre dias dias melhores e piores, com um passo de cada vez, você vai aprender a se encontrar nessa nova dinâmica. Vai conseguir andar para frente sem achar que largou alguém lá atrás. Vai conseguir se reinventar. Vai reconhecer que, muito embora a ausência de alguém te transforme de alguma forma, ela não define completamente quem você é – e sempre foi. Você vai ver que, depois de um tempo que começar a encarar essa dor de frente, você vai ser capaz de sentir orgulho de você, de quem você se tornou, de como você se reergueu, como renasceu.

Como dizia minha amiga, a dor em si não passa, não. Mas a gente aprende a andar ao lado dela, sem se governar por ela.

Categoria: Diário de Madame
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8 comentários
  1. Sara

    Que lindo seu texto, seu desabafo. Você se expressa muito bem, consegui sentir cada palavra.

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  2. Ivone

    Que texto lindo, Martinha!
    Parabéns mais uma vez!

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    • ivone,, adoro você por aquui!! já me acompanha há tanto tempo, fico feliz quando vejo que vocÊ permanece! <3 beijos!

      Responder
  3. Dami

    Lindas as suas palavras Martinha! Parabéns!

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  4. clarinha brites

    Vc é uma pessoa incrivel..lembra sempre disso

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  5. elen

    Esse texto é uma anestesia a dor latente que é a perda de alguém. É, também, um copo de água no meio desse deserto de desesperança provocado pela tristesa.
    OBRIGADA… mesmo sem saber, vc vem me fazendo tão bem.

    Responder
  6. elen

    Esse texto é uma anestesia a dor latente que é a perda de alguém. É, também, um copo de água no meio desse deserto de desesperança provocado pela tristeza.
    OBRIGADA… mesmo sem saber, vc vem me fazendo tão bem.

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