post da Martinha Fonseca

Diário de Madame: uma carta pra mim

dos 10 para os 28 anos

23 jan 17

Eu sei que você sente minha falta; que você se apegou à minha rotina, às coisas que fazem sentido pra mim e como todo esse mundo em que estou te moldou de alguma forma para você ser quem você é ou gostaria de ser. Eu sei que você gostava de ter meus hábitos, que gostava do meu jeito de pensar, de agir, de planejar a vida e eu sei que você sente falta por tudo isso ter sido substituído de alguma forma. Mas não se sinta mal, Martinha, a vida é assim mesmo.

Tenha um pouco mais de paciência e respire mais devagar: você vai ver que ainda existe muito de mim, a martinha de 10 anos, em você, a Martinha de 28. Eu sei que eu enchia uma casa com minha falação e que hoje existe um silêncio auto-protetor e ao mesmo tempo ameaçador que te habita. Mas acredite no seu coração, ainda existe muito de mim em você.

A vida tem te exigido muito ao derrubar as suas muralhas de defesa e seus castelos de areia sem pedir licença. Não era mesmo de se esperar que você fosse olhar tudo isso e, desde sempre, achar que está tudo certo. Mas a vida adulta é um pouco assim, sabe? De um lado um luto por as coisas não terem mais um lugar certo para estar e uma duração certa para existir; e, do outro lado, é um florescer de novas forças, novos horizontes e novas habilidades que vão te dar orgulho. É um medo de não ser capaz que sufoca, e um respirar aliviado de “ufa, deu certo”. Acredite.

A vida adulta é um tirar de pessoas que cumpriram sua missão e foram embora, e cuja ausência é sentida, mas é um existir de pessoas difíceis e cruéis com quem você terá que aprender a lidar. Eu sei, você não queria ter que lidar com a crueldade das pessoas, principalmente daquelas a quem você dedicou seus sonhos. Mas olha, a vida adulta é assim mesmo; longe de ser preto no branco, e mais um misto de 300 tons de cinzas, pretos, vermelhos, amarelos que te ensinam novas formas de ver o mundo, resignificando o que antes era importante e que agora não necessariamente precisa ser. Por mais que te cause dor, a vida é assim.

Olhando daqui eu jamais imaginaria que você seria capaz de se defender como tem se defendido – embora, se me permite dizer, eu acho que você consegue manter essa defesa ao mesmo tempo que dedica a quem merece a sua…ou melhor, a nossa tão conhecida doçura e leveza.

Não se ressinta de mim, não me culpe por ter sido feliz no que hoje parece ser uma ideia tão frágil e pouco precisa da realidade. Era o que eu sabia fazer, eram as cartas que eu tinha na mão para jogar, era a proteção que me foi dada com a melhor das intenções. Não me culpe. E também não se culpe: foi bom enquanto durou o seu conto de fadas, mas a minha história ter se encerrado não significa que a sua não esteja sendo escrita de uma maneira linda também. As coisas mudam, Martinha, e há de haver em você uma força para se adaptar novamente a elas.

Perder pessoas, quem diria, parece menos sofrido do que perder ideias, sonhos e parâmetros. Ressignificar uma ausência física, quem diria, é menos doloroso do que abrir mão de tudo que foi te ensinado e que agora, como um passe de mágica, vira pó. Tão doído, não é?

Mas olha, não se desespere. Deixa eu te consolar: ainda existe muito de mim em você, sabia? Ainda existe um riso frouxo, um presepada sem motivo, uma risada boba que insiste em sair. Existe uma alegria genuína, uma vontade linda de agradar, uma força enorme de querer ser você. E se eu pudesse te abraçar agora, bem forte, e te dizer algo no pé do ouvido, só para você ouvir, eu diria: eu ainda vivo em você. De um jeito menos óbvio, menos exposto, menos bobo e ingênuo, e até de um jeito machucado, mas eu ainda estou aí. Não esquece disso, tá?

As coisas mudam, Martinha, e viver está em saber se adaptar a essa mudanças. Sem esquecer de mim, mas sem viver achando que hoje, 18 anos e muitas lágrias depois, você ainda será igual. Não ser igual, Martinha, não quer dizer ser menor. Lembre-se disso.

e para ilustrar o nosso diário, os looks vida real da semana:

diariopost

– top AudioVisual, pantacourt Zara, Bomber C&A, Flatform Melissa
– Blusa Boah, Calça Farm (Lollita Lollita), Flatform Melissa
– Regata Richards, calça 284, sapato e bolsa Schutz, Colete AudioVisual.

 

beijos!

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