post da Martinha Fonseca

A maldade do mundo

e o que a gente tem a ver com isso

18 jul 16

Me entristece. Me choca. Me desanima. Não é possível que o mundo esteja tão fora dos trilhos assim. Não é possível que matar pessoas se torne corriqueiro, que ataques terroristas aconteçam com tanta frequência, que guerras existam e continuem produzindo refugiados em massa. Não é possível que negros morrendo por serem negros sejam algo comum. Que gays apanhem por serem gays. Que mulheres sejam violentadas por serem mulheres. Que assaltos aconteçam à luz do dia e que a gente esteja se acostumando com isso.

Não é possível que tanta coisa ruim esteja acontecendo.

A semana que passou foi difícil de digerir. O ataque em Nice foi um soco no meu estômago, e todos os acontecimentos terríveis que vieram antes e depois disso (dos mais drásticos como o assassinato de policiais nos EUA aos mais “comuns” como tiros numa rua que costumo frequentar aqui em Salvador) seguiram dando socos no meu estômago. O mundo está louco, o mundo está ruim de se viver. E isso me devasta, me entristece, me coloca para baixo.

Passei horas pensando em tudo isso e em como eu, você e outras pessoas comuns temos nada e tudo a ver com isso.

Nada porque, de alguma forma, resolver o problema do terrorismo ou de assassinatos racistas compete às autoridades de cada país, dos seus ministérios de defesa, presidentes e primeiros ministros – e não é hora de usar a lei de talião. Por outro lado, de alguma forma, temos tudo a ver com isso porque qual será a nossa parcela de culpa em promover o ódio, nós mesmas, no nosso dia a dia? Quão culpadas somos em colocar em patamar de normalidade como se normal fosse odiar as pessoas?

Não dirigimos caminhões por aí que matam pessoas em dias de festa. Mas somos, talvez, a pessoa que se esconde atrás de uma tela de celular e faz comentários terríveis sobre alguém apenas porque não somos “obrigados a nada”. Apenas porque precisamos (really?) ser sinceros, e não “talifãs” que adoram tudo que fulaninha faz. E ali plantamos a semente do mal, do ódio, do não querer bem, do não se colocar no lugar do outro.

Não matamos alguém só porque ele é negro, mas olhamos torto quando um negro senta do nosso lado. E ali plantamos e alimentamos a diferença entre seres humanos iguais. Não somos loucos que usam religião para matar outras pessoas, mas não respeitamos o amigo na escola que defende o evolucionismo – chamamos eles de ridículo, burro e no mundo plantamos a semente da intolerância.

Não somos o ex-namorado enciumado que mata uma mãe com facadas na frente da própria filha. Mas somos as mulheres e os homens que descreditam o feminismo, que questionam os argumentos de uma mulher, e que plantam na nossa sociedade o sentimento de que nem tudo foi feito para mulheres fazerem.

O mundo está cheio de ódio e talvez você prefira entender que nada disso tem a ver com você. Que o problema está, única e exclusivamente, lá na Síria, lá em Paris, lá nos EUA, lá no Rio de Janeiro, lá em Brasília.

Ou então você pode começar reconhecendo que o ódio extremo um dia foi “apenas” um olhar torto na rua, um comentário maldoso na internet, uma pergunta indelicada e que existe uma parcela de erro em você. E aí, ao reconhecer isso, você tente fazer algo, você mesma, para mudar você e a sua relação com o mundo.

 

Porque não há, em mim ao menos, uma outra forma de pensar o assunto: se o mundo vai mal, e eu faço parte do mundo, deve haver algo que eu possa fazer no meu dia a dia, na minha realidade, que possa contribuir, de alguma forma, para mudar o rumo que as coisas andam . E você pode me achar uma Poliana por pensar assim. Tudo bem. Não ligo. Prefiro ser Poliana e achar que as coisas ainda tem jeito e que de alguma forma eu posso contribuir para algo melhor, do que ficar parada, horrorizada com o mundo ao meu redor, achando que nada nessas tragédias tem algo a ver comigo.

:(

Categoria: Comportamento, Diário de Madame
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12 comentários
  1. Lílian

    eu sei que já disse isso milhares de vezes, talvez esteja até sendo uma chata repetitiva..mas eu super me identifico com você ( do mesmo jeito que você com as musicas de John Mayer heheh)

    Acredito, de todo meu coração, que se cada um buscar se melhorar/policiar teremos um mundo melhor! Se o mundo é feito por todos, todos temos que melhora-lo! Ficar somente nas lamentações e colocando a culpa em outros, não muda nada!

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    • não dá mesmo para ficar de braços cruzados e ver toda essa loucura acontecer. porque na minha cabeça eu acho que de alguma forma o que acontece em nice, aacontece em alguma proporção perto de mim também. e não é possível que não exista algo a ser feito a esse respeito…
      beijos madame!
      ps: não será jamais uma chata repetitiva! <3

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  2. Débora

    Oi Martinha! Adorei seu texto e ele exemplifica muitas coisas das quais sinto quando olho para o mundo atual.
    Mas também acredito que a mudança começa com nós mesmo! Como você disse no texto, pequenas atitudes nossas no dia a dia, podem transformar, mesmo que lentamente, a forma do mundo agir.
    E sempre temos que nos lembrar que ainda existe bondade no mundo! E devemos continuar a semear isto, mas infelizmente em alguns momentos as coisas ruins acabam as ofuscando.
    Um beijo.

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    • é, às vezes a gente esquece que ainda existe bondade e gente boa no mundo.
      eu sou sempre poliana nesse sentido, e talvez por isso tenha me abatido tanto quando percebi que a maldade existe na vida real, não só na novela.
      mas também viver num mundo cor de rosa, de sonhos, também não leva a gente muito longe. então é isso, encara a realidade sem se esquecer do lado bom de viver – porque se não a gente enlouquece de vez.

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  3. Marina

    Martinha querida! Tomo a liberdade de te chamar de querida porque você é realmente uma pessoa de luz, muito querida. Penso muito nessa questão da cultura do ódio que vivemos hoje destilando veneno pelas redes sociais, pelos olhares, pelos julgamentos preconceituosos que fazemos das pessoas… Não poderia deixar de dizer também o quanto você escreve bem, com a simplicidade e sinceridade de uma alma boa! E outra coisa, também sou Poliana, acredito na teoria do bom selvagem, acredito que somos essencialmente bons! Parabéns pelo seu texto, muito significativo nos dias de hoje.

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    • oh, marina! obrigada! suas palavras também são cheia de simplicidade de uma alma boa. obrigada pela companhia aqui. ão vamos perder a esperança de que o mundo ainda pode ser um lugar melhor para se viver… beijos!

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  4. Carol

    Acho que você conseguiu traduzir em palavras o que estava entalado na garganta de muita gente. A mudança começa no coração de cada um, e SIM, podemos fazer a diferença! Me recuso a pensar que tais acontecimentos sejam normais! É revoltante!!!
    Parabéns pelo texto, madame! Beijos

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    • pois é! se a gente se deixar levar por essa onda de ódio, achando que nada mais pode ser feito, viver perde o sentido, sabe? o amor tem que ser maior que tudo isso, tem que ser!!

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  5. olá madame linda! Olha eu sou baiana e moro aqui na Bélgica, onde recentemente houve aqueles atentados. Na verdade eu me pergunto muita vezes se sou louca? Lhe digo a verdade, pois eu penso que todos poderíamos ser felizes se respeitasse-mos uns aos outros em todos os aspectos. Se ao invés de impor regras todo o tempo, apenas fossemos mas felizes com tudo que temos. O mundo está virando pernas para o ar, com tanta loucura alheia. Um beijo da outra baiana.
    leniliz.com

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    • parece tão simples resolver tudo isso, né? respeito, apenas respeito!!
      beijos, madame-baiana! :***

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  6. Carla Glaucia Nascimento Carinhanha

    Não é a primeira vez que leio seus textos. e toda vez que tenho um tempinho, leio e fico encantada com textos tão sinceros e bem escritos.
    Tudo que você falou, com certeza nos faz pensar e pensar muito sobre tudo que está acontecendo no mundo. Essa tristeza infelizmente está longe de se acabar e o que nos resta é tentar de alguma forma tentar minimizar essa dor… Que possamos nos conscientizar de que precisamos uns dos outros e que possamos dessa forma tentar acordar o “mundo” para um mundo melhor.
    Compartilhando seu texto. Beijos

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    • parece tão simples resolver, que às vezes é inacreditável que tudo esteja tão ruim. mas mesmo com esse desânimo e tristeza, a gente tem que achar um jeito de sacudir a poeira, e fazer nossa parte para, mesmo nas pequenas coisas, mudar o mundo em que vivemos. beijos, madame!

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