post da Martinha Fonseca

Diário de Madame: Vai por mim.

é apenas uma questão de sermos sinceros com nós mesmas

23 fev 15

“A pior mentira é aquela que contamos para nós mesmas” – já ouviu essa frase, né? Nada mais verdadeiro.

Olhando para trás, eu hoje percebo que se, em pelo menos metade dos problemas que tive que enfrentar na vida, eu tivesse ao menos sido sincera comigo e reconhecido logo de cara que talvez meu jeito, minhas inseguranças, meus medos e minhas implicâncias pioraram o que já estava ruim, ah, como a vida teria sido mais fácil. Sou reclamona e reclamar é meio que um forma de digerir algo que está me incomodando – já percebi isso sobre mim, sabe? Reclamo de tudo que me incomoda em qualquer instância (ainda que a reclamação seja mental por puro constrangimento de contar isso ao alguém), até eu aceitar que talvez em mim esteja a solução: se eu não me incomodo, logo um problema não é mais um problema e a questão é só saber o que gera o incomodo first of all, e trabalhar isso.

Demorei para entender que funcionava assim, me torturava, me consumia me irritando com coisas banais, sem perceber que, se algo está me incomodando tanto, eu precisava prestar atenção: me incomodava porque era algo ruim/errado mesmo, ou porque era eu que precisava mudar mim mesma e parar de entender aquilo como um problema?

Estabelecer um relação sincera e aberta com o mundo é difícil, e às vezes nos deixa vulnerável demais – infelizmente, é difícil saber quem é de verdade e quem não é, quem nos quer bem, e quem só finge que quer e aí, se preservar um pouco, guardar umas coisas sobre você apenas para quem realmente merece é uma defesa necessária à sobrevivência. Só que quando pensamos na relação que temos com nós mesmas, a coisa funciona diferente, e sinceridade e verdade são essenciais. Como disse lá em cima, a mentira que contamos a nós mesmas é sempre a pior.

Primeiro porque prolonga sofrimentos desnecessários – se a gente admitisse, por exemplo, que aquela última DR com o namorado foi apenas por pura e simples insegurança, o próximo passo seria trabalhar essa insegurança e os fatores que a fazem ser ativada e assim estaríamos caminhando para frente de alguma forma e evitando, a médio ou longo prazo que seja, que uma situação parecida com essa voltasse a ser um problema. Segundo porque retarda um amadurecimento que traz sossego para focar no que de fato importa – quando a gente não admite que boa parte de um problema é gerado por nossos defeitos e vulnerabilidades e que trabalhar isso é melhor do que jogar a batata quente para frente ou apontar o dedo para alguém, a vida parece que não vai para frente: problema que a gente finge que não vê não é problema resolvido. Pelo contrário, é problema latente, martelando no nosso juízo e apertando o coração. De repente, você está respirando diferente, mais ofegante que o habitual, e ficando ansiosa sem se dar conta do porquê. Falta concentração no trabalho, dedicação no relacionamento, leveza no dia a dia e por aí vai. E tudo porque você não consegue admitir para você mesma que se leva para o pessoal (desnecessariamente até) quando sua amiga manda mensagem apenas para uma outra amiga contando a novidade, e não para você.

Por fim, na minha opinião e experiência, o terceiro motivo que faz as mentiras que contamos a nós mesmas serem as piores é que transformam as pessoas num disco repetido de discurso vazio de poder. Um tipo de atitude que eu realmente não consigo lidar nas pessoas, confesso. O que me parece acontecer é que o desejo de esconder de si mesma o incômodo com algo que aconteceu faz a pessoa reagir como se fosse imbatível, incansável para que assim, acredita ela, consiga esconder dos outros também os seus incômodos. Aí, a pessoa vive como se nada a atingisse, nada a atacasse, nada a colocasse para baixo, e tudo fosse sempre lindo, romântico, divertido e incrível. A rotina é maravilhosa, o trabalho é incrível, os amigos são aos montes, e os pobres mortais, burros e limitados, simplesmente não conseguem acompanhar como tal pessoa é incrível – #sqn. Meia hora de conversa com esse discurso “incrível” de como a vida faz sentido para quem entende e vive o que Zigmun Bauman disse em seu último livro, e você percebe que toda aquela fachada de super poder é só uma fachada mesmo, que esconde problemas de auto confiança, auto conhecimento e um relacionamento sincero com ela mesma e com um mundo.

Tá, eu sei, cada um vive do jeito que pode e do jeito que sabe (e eu mesma tento me lembrar disso todos os dias para não cair no erro de sair julgando as pessoas apenas pelo que eu acho certo e errado). Mas é que nem sempre é tão difícil assim ser sincero com nós mesmas. Quer dizer, difícil até é, mas compensa, sabe? Eu tenho muito daquilo que comentei aí no texto, de no meio do dia perceber que minha respiração está diferente por algum motivo. E com o tempo aprendi que quando isso acontece é porque não reagi bem a algo que aconteceu. E aí vou voltando meu dia, minha semana ou mês, como um fita cassete sendo rebobinada, e passando acontecimento por acontecimento até achar algo que tenha motivado minha mini crise de ansiedade (às vezes nem tão mini assim, kuen). E aí, me imagino na sala da terapia que deixei de fazer há alguns anos mas que ainda faz sentido para mim. Imagino que estou lá e que perguntas a terapeuta me faria, e que respostas eu daria. Às vezes esse processo demora dias, e aí quando começo a reclamar demais sobre o assunto é quando eu sei que tem algo errado aí mesmo. Vou analisando, pensando, reclamando, voltando atrás, repensando e tcharam!!, achei a raiz do problema!

Nem sempre é fácil admitir que o problema está em mim, e nas minhas vulnerabilidades. Mas vai por mim, é bem melhor admitir fragilidades reais e buscar trabalhá-las do que fingir ser super homem por aí. Vai por mim.

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a semana por curtinha já que contei tudo do carnaval em um post anterior, e depois dele deve só quinta a domingo. Por isso hoje, o Diário de Madame é só um textinho do que andou passando pela minha cabeça esses dias. Espero que leiam e que gostem :*

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