post da Martinha Fonseca

Dos diálogos imaginários

14 mar 14

Nunca fui fã de terapias, tinha a maior resistência do mundo em fazer. Certo período da minha vida, porém, eu me rendi ao serviço e lá fui eu sentar na cadeirinha e começar a conta a minha vida. Era isso ou eu ia pirar, endoidar, surtar, enlouquecer. Engraçado que precisei da ajuda de um terceiro para perceber como eu era/sou ansiosa.

No início dessa semana, no “Diário de Madame”, fiz uma brincadeira sobre ser ansiosa com 2014, em ter tanta coisa acontecendo (copa, eleições, etc) e mencionei esse lance de construir diálogos imaginários na cabeça. É algo que eu preciso me controlar sempre – digo, s.e.m.p.r.e! – para não fazer. Hoje em dia tenho consciência disso, e por mais que tenha falado em tom de brincadeira sobre isso no post, eu meeeega me assustei com a quantidade de madames-leitoras que se identificaram com esse trecho do post. Gente, faz mal, muito mal.

Tinha uma época da minha vida que estava passando por uma guerra-fria-não-tão-fria-assim com uma pessoa com quem tinha convívio forçado – sabe o que quero dizer? aquela pessoa que, por estar com alguém com quem você sempre está, você encontra sempre, em todos os lugares e ocasiões. Era um martírio. Estava tudo tão errado, tão louco, tão absurdo, que era impossível não me consumir. E olha só o que acontecia: quando eu sabia que eu ia encontrar essa pessoa, eu ia o caminho todo até o tal encontro imaginando diálogos de deixar Manoel Carlos com inveja, numa piração sem fim: “se ela me disser tal coisa, eu já respondo assim; ela não vai gostar, paciência; e se ela me disser algo do tipo, eu respondo desse jeito assim ó…”. Malditos diálogos imaginários!

Eles não só não aconteciam, como eu já chegava no tal encontro-da-morte com um pico de estresse absurdo, consumida por algo que nunca aconteceu, na expectativa do pior (sempre, né?), e alimentada por energias ruins que nem combinam comigo. Eu sou alegre, feliz, de bem com a vida, bem humorada e, no máximo, irônica. Mas os diálogos imaginários levavam tudo isso embora, e tudo que sobrava era  pior versão de mim. Resultado? Ficava estressada, ansiosa, triste, com raiva de estar assim e monotemática com meus amigos: só falava desse mesmo problema, em modo “chata ad eternum“.

Precisei de alguns meses de terapia para perceber como esse processo era natural para mim. Bastava eu me sentir insegura com alguma situação (e nem sempre você se sente insegura só porque a outra pessoa é melhor que você, ou está mais certa que você), que os diálogos imaginários aconteciam. É diferente de você planejar o que dizer numa apresentação importante ou ir passando o assunto na cabeça quando vai conversar com algúem. Os diálogos imaginários são sempre sobre conflito, é sempre um diálogo difícil, é sempre uma situação de estresse e, por fim, é sempre algo que nunca acontece.

E vamos combinar? A vida já é difícil por natureza para gente dificultar ainda mais. Vamos parar com isso!

Sabe um clássico do diálogo imaginário? Briga com namorado. Ele fez merda, você se chateou, e até a DR acontecer, você já simulou todas as possibilidades, fez as perguntas que ele vai fazer (ou que você acha que vai), já elaborou as respostas e fez novas perguntas, as quais, na sua cabeça, você acha que ele não saberá responder e você ficará irritada, ainda mais. Percebe? Você se irrita por algo que ainda nem aconteceu! Aí você chega, encontra o boy, ele te pede desculpas…e…éee…veja bem, você é incapaz de aceitar as desculpas, deixar isso pra lá, ser racional e focar no que de fato importa, apenas porque sua mente já te estressou o suficiente para você não conseguir pensar em mais nada a não ser em ganhar a briga. 

E que diferença faz ganhar a briga?

Que diferença faz ter os melhores argumentos?

Que diferença faz causar inveja em Manoel Carlos (ou em Paola Bracho, se se adequar melhor..hahah) com seus diálogos imaginários?

Nenhuma, né?

Palavra de quem está em “rehab” eterna quando o assunto é ansiedade: é preciso querer – e muito! – mudar para se conseguir mudanças. E assim como toda pessoa com problemas de alcoolismo, de raiva desmedida e desproporcional ou qualquer outra coisa do tipo reforça sua atenção para não cometer os mesmos erros pelos quais sempre se arrepende, eu, ansiosa como sou por natureza, redobro minha atenção para, ao invés de ganhar diálogos imaginários mirabolantes, ganhar paz de espírito e um sono tranquilo. Sabe, eu ganho mais assim.

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